Wednesday, October 5, 2011

Ópera Carmen no Teatro Nacional de Scarlos


A célebre ópera CARMEN de Bizet foi mais uma vez cantada no Teatro S.Carlos de Lisboa.


Antes de mais, gostaria de salientar as "Breves Palavras", que meia hora antes do espectáculo começar são ditas por especialistas, descobrindo o universo particular de cada ópera, a ligação da música à narrativa, as questões artísticas e sociais abordadas, as encenações e sua filosofia e estética, bem como o seu significado!

A Maestrina Júlia Jones dirigiu musicalmente com o seu grande sentido interpretativo, deliciando-nos com a cor e ritmo executados. Infelizmente consta que nos vai deixar, pois o seu contrato não foi renovado.


A meio-soprano Rinat Shaham, cantando a Carmen, uma cigana, com uma voz cheia e redonda, encantou com a sua vivacidade, parecendo ser mais de origem espanhola, embora nascida em Israel, revelando-se muito versátil e representando com garbo, embora necessite de desenvolver melhor a sua respiração no canto bem como o legato.

O barítono Yannis Yannissis, de Atenas, cantou com projecção de voz o Escamilho, especialmente na famosa ária do Toreador, com potência e convicção. Voltará a Lisboa em breve.


A Micaëla, cantada pelo soprano lírico Adriana Damato, com uma escola de canto verdadeiramente italiana, fez-nos lembrar que foi um dos primeiros papeis da célebre Mirella Freni.


Adriana Damato, nascida em Bari, foi vencedora-1º Prémio, em 2003 do Concurso internacional de Canto "Operalia". Um nome a fixar, pois dada a beleza da sua voz e escola de canto, encantou e foi uma lição de como se deve cantar e transmitir beleza e arte ao público.Uma verdadeira criação!


Da colaboração dos cantores portugueses, salientamos o já veterano Luis Rodrigues, barítono cuja voz gostaríamos que não saisse tão forçada, embora seja cheia e timbrada.


O Baixo Nuno Dias, ainda jovem para o seu tipo de voz profunda, representou e cantou, bem no papel algo difícil de Zuniga, pois contracena com vários cantores. É curioso notar que têm aparecido vários barítonos e baixos, vindos sobretudo do Norte!


O encenador Stephen Medcalf, vencedor do prémio Abbiati da crítica italiana, tem obtido êxitos em vários teatros europeus. A sua Carmen foi de época e muito colorida, com os cenários e figurinos do inglês Jamie Vartan, embora a fábrica de tabaco fosse dentro de uma tourada (?)


O papel de D.José, que exige um tenor lirico-spinto, foi cantado por Andrew Richards, dotado de uma voz cheia, embora nos agudos usasse um misto de falsete, pois cantar o si bemol, na célebre ária "La Fleur que tu m´avait jetée", não é “pêra doce” e para os menos entendidos passa e até arranca aplausos...


A propósito desta ária, recordo-me que o gigante dos tenores Franco Corelli, quando atacou a ária da Flor, na Carmen em francês no S.Carlos a cantou em italiano, para espanto de todos nós que assistíamos!

A. Fernandes Lourenço

Monday, May 16, 2011

Critica da Ópera "BANKSTERS"


UMA ÓPERA de COMPOSITOR PORTUGUÊS, CONTEMPORÂNEO,
NO TEATRO NACIONAL DE S. CARLOS!

A. Fernandes Lourenço

BANKSTERS

Ópera tragicómica em três actos em estreia absoluta, do compositor
Nuno Côrte-Real.

Com um "herói", um banqueiro (são sempre estranhas personagens), aqui Santiago Malpago, é visitado por uma personagem, anjo ou demónio, cuja missão é levá-lo à desgraça e desespero, é preso e logo abandonado e humilhado, por aqueles que o "engraxavam".

O barítono Jorge Vaz de Carvalho, interpretou com muita experiência, embora raramente cante no S.Carlos, actualmente. Gostaríamos de ter no papel talvez um baixo ou baixo-baritono, pois no final as notas são bastante graves e nem sempre o efeito foi conseguido.

Um jovem cantor que se destacou, foi o barítono Diogo Oliveira, com
belo timbre e sabendo tirar efeito dos focos acústicos do Teatro, daí
resultando um belo schillo e projecção de voz. Aliás este cantor tem
feito carreira lá fora.

Também o baixo Nuno Dias, embora num pequeno papel, tem evoluído, em técnica vocal, sobretudo depois das suas visitas à Alemanha.
Sara Braga Simões em Mimi Kitsch, a mulher, cantou com veemência,
embora um soprano de voz mais dramática fosse mais indicada.

Outros cantores contratados, creio que por cinco anos, pelo anterior
Director, tais como o tenor Musa Nkuna e soprano Chelsey Schill,
cumpriram e esperamos que brevemente partam para aliviar o orçamento do Teatro, que bem precisa!

Sendo portanto uma obra burlesca, cujo libreto seria melhor escrito
por outra pessoa de visão diferente da de Vasco Graça Moura,
inspirado na peça Jacob e o Anjo de José Régio. A musica do compositor
Nuno Côrte-Real (n.1971) tenta assumir um espirito de sátira e leve
acidez, embora a força motriz da Ópera seja: a redenção pela morte,
como libertadora da vida.

O cineasta João Botelho deu-nos uma encenação colorida e à maneira de realizador de cinema, o que agradou ao público.

PRÒXIMA ÓPERA: "O Chapéu de palha de Itália" de NINO ROTA(1011-1979) em Maio.

Thursday, January 27, 2011

Ópera Kátia Kabanová

A Ópera Kátia Kabanová no Teatro Nacional de S.Carlos

Acontecimento excepcional , com as representações da ópera Kátia Kabanová do compositor checo,
Leos Janácek! Foi um enorme exito, pelo elenco de cantores, destacando-se o soprano lituânio Austrine Stundyte, dotada de uma voz lindíssima e cheia, igual em todos os registos e com uma interpretação notável. Trata-se pois de um nome a registar, augurando-se futuros exitos, pois tem sido solicitada para cantar, os mais diversos papéis tais como Madama Butterfly!
O sucesso estrondoso do compositor Leos Janácek, com a sua ópera Jenufa (1904)Brno, resultou em repetidas tentativas para reviver outras óperas de janacek, que escreveu música ritmica muito poderosa embora, ligeiramente menos original , a Kabanová mas com uma apaixonante intriga, baseada numa peça " A Tempestade" de Ostrovsky, com libreto do compositor.A sua ópera seguinte " A Raposinha Matreira"(1924), pertence a outro género-a ópera de conto de fadas. É um trabalho muito difícil para o palco o que tem evitado a sua popularidade. Janácek encantou audiências, com a espontâneadade fresca da sua música, que cresceu com as raizes das melodias folclóricas da Morávia, música eslovaca com canções e danças populares, música moderna e "rougher", o seu estilo e caracteristicas pessoais é um overrinding-maneira declamatória adaptada aos ritmos originais da música folk, eslováka; outra caracteristica é o fluxo das suas melodias e complicadas figuras acompanhadoras, que evocam atmosferas cheias de tensão, nunca afrouxando.
Assistimos a tres récitas da Kátia Kabanová, com entusiasmo crescente, pois o elenco foi óptimo, tendo na última récita sido substituida, por doença a meio- soprano Anna Grevelius que cantou o papel da filha adoptiva dos Kabanov. Quanto ao papel do amante de Kabanová,o tenor Arnold Baldvinsson ( que vimos em Bayreuth no papel de Loge) dotado de uma voz lirica, igual e potente. O marido de Kátia e filho de Kabanicha(meio-soprano Dagmar Peckova) foi o tenor, alemão Hans-Georg Priese, também interpretou com segurança e intensidade. Entre os restantes cantores destaco o baixo islandes Magnus Baldvinsson.
Quanto à encenação com inspiração no expressionismo alemão, provou com com poucos cenários se podem fazer maravilhas, bemcomo com o belissimo efeito de luzes e sombra.