Wednesday, December 9, 2009

Continuação: GÖTERDÄMMERUNG, em S.Carlos


Relativamente aos cantores destaco o tenor heróico (ou Helden) Stefan Vinke, com uma voz redonda seguríssima até ao fim e sem esforço, o que é raro. Recordo-me que o mesmo aconteceu com Peter Seiffert, que cantou um óptimo Lohengrin em Bayreuth e que finalizou a Ópera com o mesmo fôlego e pujança com que começou. Gostaria de esclarecer que para um tenor heróico dar uma nota aguda, um lá ou um si bemol, é necessário grande esforço e técnica e o som sai mais encorpado (daí a ignorância do crítico, que disse que Vinke gritou!), creio não ser exagero afirmar que Stefan Vinke, será o melhor Tenor Wagneriano do momento!
Quanto à intérprete da Brünnhilde, a Soprano Dramático Susan Bullock, com uma voz rara para o papel, pois em Bayreuth foi cantado por Linde Watsan (cuja voz não era, como a de Bullock, tão apropriada, para cantar Wagner).
No ano em que cantou no Siegfried em S.Carlos a Bullock pareceu-nos ter uma voz agreste, mas a voz não estaria devidamente aquecida. Agora sentimos a sua força e beleza, além de excelente actriz, com uma cor de voz rara e perfeita para a Brünnhilde.
Gostaria de destacar o barítono Michael Vier, que voz deslumbrante e ressonante, em Gunther!
No papel de Hagen o Baixo James Moellenhoff, também bela voz cantando sempre com potência, todos bons actores e bem dirigidos cenicamente.Destaco também, o Alberich de Johann Werner Prein, Baixo-baritono. Quanto à nossa compatriota, a soprano Sónia Alcobaça, em Gutrune, defendeu muito bem a personagem bem como a Mezzo-Soprano Maria Luísa Viegas e a Ana Franco em Wellgunde, têm um futuro promissor e digno de emparceirar com cantores estrangeiros!
E a Orquestra? É claro que não é a de Bayreuth, em que os melhores músicos são escolhidos por toda a Alemanha, mas a Orquestra Sinfónica Portuguesa, com cerca de 16 cordas a menos devido ao espaço, que no entanto dignificou e cumpriu, com a Direcção de Marko Letonja, que seguramente não interpretou como o Maestro Christian Thielmann que dirigiu em Bayreuth a Tetralogia (a que assisti) e com outra concepção da obra.
Sabendo eu , como interprete e espectador, a complexidade que são as Produções e a dificuldade em encontrar bons Cantores, que sejam calhados para os papéis, além dos Orçamentos elevadíssimos, cachets, etc. Este" Crepúsculo dos Deuses" encheu-me de júbilo ( a minha alma!) pois considero , senão a melhor Ópera cantada e encenada no Teatro de S.Carlos, ou uma das melhores em cantores, interpretes, encenação, músicos , em tudo digna de qualquer Teatro europeu e internacional!
Eu aposto nas encenações inovadoras e criativas, com novas concepções filosóficas, dramatúrgicas e literárias, indo buscar inspirações às artes plásticas e enfim à história da arte, pois isso traz uma riqueza acrescida, uma mais valia, à obra de arte total que é a ópera!
Assim terminou a terceira e última jornada em três actos do festival cénico DER RING DES NIBELUNGEN( O ANEL DO NIBELUNGO). Libreto e musica de Richard Wagner.

Tuesday, December 8, 2009

"O Crepúsculo dos Deuses" no Teatro Nac.de S.Carlos

Apesar de ao longo de precisamente 50 anos termos assistido a todas as Óperas cantadas em S.Carlos, (com raras excepções) "O Crepúsculo dos Deuses" agora cantado no Teatro de S.Carlos, foi das maiores e mais enaltecedoras produções , incluindo a última produção, a que assistimos no Festival de Bayreuth. Os cantores foram magníficos, superiores aos de Bayreuth, sobretudo o tenor que cantou o papel de Siegfred, um verdadeiro Helden tenor wagneriano, e o soprano dramático que incarnou a Brunhilde! Verdadeiros cantores wagnerianos.
Quanto à encenação, nunca até aqui eu tinha sentido, tão intensamente com uma compreensão profunda, da essência do libreto, em que, como todas as obras primas, retratam a natureza humana com os seus grandes defeitos, vícios e virtudes, contribuiu também a mudança radical do Teatro em que, no lugar da plateia, se construiu um palco/arena, sendo as cadeiras transferidas para o palco. O teatro brechtiano e épico que nos fez envolver na acção, atingindo-nos racionalmente e emocionalmente no nosso âmago! Graham Vick traz-nos o saber e a arte do melhor Teatro do mundo que é a escola inglesa. Contudo, teve o cuidado de não exigir demasiados trejeitos e posições que pudessem prejudicar a emissão de voz de um cantor lírico.
Como é possível haver "criticas" perversas à voz dos cantores por pessoas que não têm conhecimentos de técnica vocal e não trabalham em afinação musical? Só o desejo de deitar abaixo, de menosprezar uma obra de arte.