Saturday, October 15, 2016

200 anos do Teatro Real de Madrid

Estreia de gala, com a presença dos reis de Espanha da nova temporada do Teatro Real de Madrid.


Tocou-se o hino nacional e cantaram-se os parabéns por ocasião do aniversário da Rainha Letícia.

Abertura da nova temporada de ópera com a obra prima de Verdi, Otello, escrita quando este era já septuagenário, prova que a criatividade não é propriedade exclusiva da juventude, mas sim com o amadurecimento e a carga cultural adquirida com os anos pode gerar obras eternas.

O mouro Otello, Governador de Chipre, e general da frota veneziana, entra em cena com a intervenção "Esultate, l'orgoglio musulmano sepolto" e é recebido pela sua nova esposa Desdemona. Ora, nesta encenação Otello aparece-nos surpreendentemente, como caucasiano (branco).

Otello provoca sentimentos, tanto nos intérpretes como nos espectadores, muito intensos, sendo a história tão reveladora agora como o foi no tempo de Shakespeare, de cuja peça foi extraído o libretto concebido por Arrigo Boito.

Iago, lugar-tenente do Otello, é preterido por Cassio, que é nomeado para o seu lugar. Isto provoca algo de ressentimento diabólico gerador do drama. Sendo um manipulador perverso, sarcasticamente, vai insinuando junto de Otello que Desdemona o trai com Cassio, usando como prova um lenço.

Estamos perante um caso de psicopatia no qual Iago vai instilando o veneno num ser já de si frágil e vulnerável, tornando Otello dependente emocionalmente, que pouco a pouco se vai desintegrando como herói.

Nesta encenação do Teatro Real, apresenta-se em todos os actos um pátio cinzento e um mundo militarizado e brutal de soldados desumanizados. As personagens movem-se coladas às paredes, gerando grandes sombras, fazendo-nos lembrar, quais vampiros, Nosferatu. Os emissários chegados de Veneza vestem todos fatos negros com peles, algo requintados.

As treze récitas de Otello vão ser cantadas com dois elencos que se alternam; no primeiro elenco o tenor Gregory Kunde, embora dotado de uma voz cheia e de timbre bonito pecou por não ter os graves necessários a um tenor abaritonado exigível para o papel. No segundo elenco, o coreano Alfred Kim, mais adequado ao papel e com graves de tenor dramático, possuía no entanto um timbre algo agreste que por vezes nos fazia duvidar da entoação.

Da Desdemona de Ermonela Jaho, diz-se que é decepcionante. Já a soprano arménia Lianna Haroutounian deslumbrou-nos com a sua técnica de bel canto, timbre delicioso e facilidade em todos os registos.

O primeiro Iago foi interpretado por George Petean com uma bonita voz de barítono embora pouco adequada ao papel. Já no segundo elenco o nosso bem conhecido Ángel Ódena, que cantou o Nabucco em Lisboa, mostrou uma voz poderosa e bem adequada ao papel.

O maestro Renato Palumbo apresentou-se com uma direcção enérgica er emotiva, embora por vezes encobrisse as vozes dado o volume da orquestra. Tendo havido na primeira noite manifestações do público, na segunda os aplausos entusiastas foram unânimes, para todos os artistas.

António Lourenço