A célebre ópera CARMEN de Bizet foi mais uma vez cantada no Teatro S.Carlos de Lisboa.
Antes de mais, gostaria de salientar as "Breves Palavras", que meia hora antes do espectáculo começar são ditas por especialistas, descobrindo o universo particular de cada ópera, a ligação da música à narrativa, as questões artísticas e sociais abordadas, as encenações e sua filosofia e estética, bem como o seu significado!
A Maestrina Júlia Jones dirigiu musicalmente com o seu grande sentido interpretativo, deliciando-nos com a cor e ritmo executados. Infelizmente consta que nos vai deixar, pois o seu contrato não foi renovado.
A meio-soprano Rinat Shaham, cantando a Carmen, uma cigana, com uma voz cheia e redonda, encantou com a sua vivacidade, parecendo ser mais de origem espanhola, embora nascida em Israel, revelando-se muito versátil e representando com garbo, embora necessite de desenvolver melhor a sua respiração no canto bem como o legato.
O barítono Yannis Yannissis, de Atenas, cantou com projecção de voz o Escamilho, especialmente na famosa ária do Toreador, com potência e convicção. Voltará a Lisboa em breve.
A Micaëla, cantada pelo soprano lírico Adriana Damato, com uma escola de canto verdadeiramente italiana, fez-nos lembrar que foi um dos primeiros papeis da célebre Mirella Freni.
Adriana Damato, nascida em Bari, foi vencedora-1º Prémio, em 2003 do Concurso internacional de Canto "Operalia". Um nome a fixar, pois dada a beleza da sua voz e escola de canto, encantou e foi uma lição de como se deve cantar e transmitir beleza e arte ao público.Uma verdadeira criação!
Da colaboração dos cantores portugueses, salientamos o já veterano Luis Rodrigues, barítono cuja voz gostaríamos que não saisse tão forçada, embora seja cheia e timbrada.
O Baixo Nuno Dias, ainda jovem para o seu tipo de voz profunda, representou e cantou, bem no papel algo difícil de Zuniga, pois contracena com vários cantores. É curioso notar que têm aparecido vários barítonos e baixos, vindos sobretudo do Norte!
O encenador Stephen Medcalf, vencedor do prémio Abbiati da crítica italiana, tem obtido êxitos em vários teatros europeus. A sua Carmen foi de época e muito colorida, com os cenários e figurinos do inglês Jamie Vartan, embora a fábrica de tabaco fosse dentro de uma tourada (?)
O papel de D.José, que exige um tenor lirico-spinto, foi cantado por Andrew Richards, dotado de uma voz cheia, embora nos agudos usasse um misto de falsete, pois cantar o si bemol, na célebre ária "La Fleur que tu m´avait jetée", não é “pêra doce” e para os menos entendidos passa e até arranca aplausos...
A propósito desta ária, recordo-me que o gigante dos tenores Franco Corelli, quando atacou a ária da Flor, na Carmen em francês no S.Carlos a cantou em italiano, para espanto de todos nós que assistíamos!
A. Fernandes Lourenço